terça-feira, 3 de abril de 2012

OLHANDO A VIDA

   
    Eu olho a vida como se olha o relógio, vendo o tempo passar como os ponteiros de horas e minutos numa trajetória interminável.
    A música é suave, não tem voz, apenas instrumentos não barulhentos para não perturbarem meus ouvidos sensíveis.
    Rego essa vida com umas boas chuveiradas diariamente para afastarem as mazelas que dela sempre tentam tirar proveito.
    Eu olho a vida de uma maneira pessoal, como todo mundo faz, querendo que as coisas mudem, que o verdadeiro sentido dela aflore e que contamine os demais seres humanos.
    Na rua o barulho dos veículos me incomoda, o vai e vem das pessoas me deixa confuso, afinal não sei o que elas querem. Parecem autômatos sendo manipulados por controle remoto.
    Eu olho a vida como as batidas do meu coração, muitas vezes aceleradas, fugindo do ritmo normal, por conta do estresse, esse mal tão natural e que ninguém percebe que está sendo vítima dele.
    Ouço a minha música, preferencialmente não muito alta, pois quem mais precisa dela é minha alma. Ela é quem sente a emoção e o prazer, transmitindo para o meu cérebro, que curte pacientemente.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O DESTINO DE MARION

   
    Os sinos da pequena igreja badalavam naquela alegre manhã de domingo. Da janela do primeiro andar de um casarão de estilo colonial, em cores suaves, a menina-moça Marion olhava o movimento das pessoas se dirigindo para a missa. Cavalheiros e senhoras, de braços dados, além de algumas crianças, atendiam o chamado do pároco. Todos adentraram a casa de Deus e a extensa e larga rua ficou praticamente vazia, vendo-se apenas alguns comerciantes expondo suas mercadorias nas calçadas.
    Marion ficou ali por certo tempo, já ia sair da janela quando uma charrete se aproximava. Um jovem bem vestido a guiava e parou quase na frente do casarão, descendo e instintivamente olhou para cima, como a observar o imóvel. Seu olhar cruzou com o de Marion que ficou perturbada. Ninguém jamais a olhara daquela forma, homem nenhum demorou tanto encarando uma beleza natural. Como que paralisada, Marion tentou desviar o olhar mas não conseguiu. Logo ela, uma moça pobre, sem nunca ter conhecido o amor, apesar de possuir uma beleza invejável. Achou estranho aquele comportamento e se afastou da janela, indo dar continuidade aos seus afazeres domésticos.
    Depois do almoço, quando deixou a cozinha em ordem, Marion saiu para o jardim e sentou-se num banco, pondo-se a pensar na sua vida, em como fora parar ali. Era ainda uma criança quando sua mãe viúva falecera e ela não tinha parentes próximos, vindo a ser adotada pela família Dantas, proprietária do casarão. Ali permanecia há mais de sete anos, ajudando nos serviços domésticos. Estava tão absorta em seus pensamentos que nem notou que alguém a observava. Era o rapaz da charrete, que se encantara com a sua beleza e queria conhecê-la. Marion tomou um susto e quase desmaiou quando ele se aproximou e disse um “oi” para ela. Mesmo envergonhada conseguiu trocar algumas palavras com o estranho, que se mostrou cortês, manifestando o desejo de voltar a vê-la. A conversa foi rápida e dona Creuza, sua tutora, vendo-a ali mandou que entrasse.
    O dia amanhecia quando Cláudio, instalado num imóvel ali próximo, tomava o seu café.  Ficara encantado com aquela jovem e sentia vontade de vê-la novamente. Ali estava em casa de parentes, havia chegado de outra cidade para tratar de negócios, onde demoraria poucos dias. Após a refeição pegou a charrete e se dirigiu para o centro, mas antes parou em frente ao casarão. Marion estava na janela como a esperá-lo. Trocaram olhares e ela respondeu ao seu aceno. Nesse momento dona Creuza observou a cena e proibiu a moça de dar atenção àquele moço.
    Cláudio já estava de partida e não mais vira Marion, percebendo que a janela estava sempre fechada e no jardim também não a via. Seguiu esperançoso de retornar em breve e encontrá-la de qualquer jeito.
    Dona Creuza precisou viajar mas ficou preocupada com Marion. Não queria que ela se iludisse com aquele rapaz, pois conhecia-o um pouco e sabia que não era partido para ela. Resolveu levá-la na viagem, que seria longa, e deixou a moça em uma fazenda de  um irmão, recomendando que cuidasse dela. Marion foi forçada a obedecer e passou a morar nesse novo lugar, sabendo que não mais veria o rapaz.
    Passaram-se alguns dias e dona Creuza voltou para sua cidade, deixando a menina-moça na fazenda, mesmo a contra gosto. Cláudio aparecia sempre na cidade para resolver seus negócios, mas não via Marion. Ficou sabendo que ela fora mandada embora, não tendo notícia do seu paradeiro.
    Na fazenda Marion estava se sentindo como uma prisioneira, mesmo tendo liberdade para sair. Certo dia, não mais querendo aquele tipo de vida, resolveu fugir, pegando alguns pertences e tomando o caminho que levava até o centro daquela cidade. Caminhou por cerca de uma hora, onde conseguiu carona numa charrete que a deixaria na cidade onde morava antes. Porém, antes de chegar na cidade cruzou com outra charrete e viu uma pessoa que passara a morar no seu pensamento. Ali na sua frente estava Cláudio, o moço da charrete, que se surpreendeu ao vê-la. Marion não conseguiu conter a emoção e desceu da charrete, agradecendo pela carona, embarcando então na charrete do homem que mexera com seu coração. Expôs os fatos para ele, que resolveu levá-la para sua cidade, pois estava se dirigindo para lá, vindo da cidade onde a conhecera e tentava inutilmente localizá-la. Ela aceitou o convite e ambos iniciaram um novo percurso, uma nova vida que talvez mudasse o destino dela.
    Chegaram na propriedade do rapaz, sendo recebidos pelos seus pais, que se surpreenderam com a atitude do filho, mas deram toda atenção, instalando a moça num aposento e sendo cientificados da situação dela.
    Morando na propriedade do rapaz a quem se dedicara, Marion nem percebeu o tempo passar e quando deu fé estava de casamento marcado, enviando convite para a família Dantas, que a criou. Todos ficaram surpresos na cidade e o casamento se realizou, tendo a felicidade sido companheira do casal por longos anos.

SUA LEMBRANÇA


Partiu... nunca mais vai voltar
Apenas a saudade vai ficar
Sua lembrança vai me acompanhar
Com certeza com você vou sonhar
Onde quer que esteja estaremos juntos
Seu corpo agora não mais me serve
Será destruído embaixo da terra
Mas a alma tem vida, não se encerra
Estará sempre presente no pensamento
Sua lembrança vai me confortar
Vai me dizer que você está bem
Que desta vida não escapa ninguém

CHEGOU A SAUDADE


Chegou quem eu não queria
Chegou quem tanto me fez sofrer
Chegou essa saudade abusada
Lembrando quem eu tentava esquecer
Eu já estava me acostumando
Fazendo de conta que não existia
Então caladinha chegou a saudade
Me fez tropeçar e perder o dia
Agora já não sei o que faço
Procuro um jeito de me libertar
Peço que a saudade vá embora
Quero ficar sozinho, preciso tentar
Chegou a saudade para me iludir
Chegou de mansinho, não fez sermão
Chegou só para me enlouquecer
Tirando o sossego da minha solidão

domingo, 1 de abril de 2012

BASTA OLHAR O CÉU

parei para olhar o lindo céu azul
algumas nuvens brancas, imagem formosa
aí veio a brisa sorrateira e fogosa
me emvolveu e beijou o meu rosto
despertou o meu eu, libertou minha alegria
me fez acreditar que nem tudo é sonho ou orgia
é um prazer que a vida oferece a todos
basta procurar um lugar calmo e solitário
olhr o céu e sentir-se um missionário
pensar em Deus, deixar fugir a tristeza
pode até imaginar que isso é melancolia
mas os bons fluidos resgatam sua alegria
basta olhar o céu e sentir a brisa

CULTO PARA UM ANJO

os últimos raios de sol quase me ofuscavam
o campo santo mergulhava em silêncio total
eu insistia no contato o anjo e o mortal
na frente da lápide olhava o seu nome
imaginava os momentos que a tinha nos braços
parecia ver seu sorriso, seu andar, seus traços
era como se ela estivesse ali presente
o peso da saudade agora me mata
o tempo me julga, me joga nessa vida ingrata
me faz sofrer por tê-la ferido, abandonado
me traz sempre aqui para cultuar seu nome
a vontade de viver foi embora, a paz me some
sou apenas um solitário sem rumo certo
como seria bom se o tempo voltasse
mesmo que com isso minha vida custasse
cultuo apenas meu anjo nesse momento
sou refém do tempo e suporto o sofrimento
por tê-la abandonado quando não devia
meu culto é para você, meu anjo querido
talvez um dia a você eu possa estar unido

O SEGREDO DO PORÃO

    A velha casa de campo estava abandonada há anos, desde que seu antigo proprietário falecera, vítima de um mal súbito naquele imóvel imenso, em terras outrora cultivadas, com empregados e hoje entregue a herdeiros que não dão a devida atenção. Fazem algumas visitas muito raras apenas para se certificarem de que está tudo em ordem. Nessa manhã, Jair resolveu entrar na velha casa, em busca de algo que um sonho havia lhe revelado. Não sabia o que, mas tinha a impressão que era coisa de valor.
    Tinha sido um dia normal para Jair e à noite, um pouco cansado, resolveu se deitar cedo. O sono não tardou e ele se viu na frente da casa de campo abandonada. Sonhava que estava ao lado de um senhor que pedia para pegar algo que lhe pertencia e que estava guardado no porão. Entrou e se dirigiu ao local indicado. Quando tentou levantar a tampa que dava acesso ao mesmo, uma viga de madeira se desprendeu do alto e lhe atingiu na cabeça, deixando-o prostrado no chão. Acordou nesse momento de um sonho ruim. Passou a mão na cabeça para se certificar se fora realmente um sonho.
    Diante da casa Jair hesitava, não estava muito a fim de entrar para procurar o que lhe fora revelado em sonho, mas por impulso adentrou a casa e parou diante da tampa do porão. Viu que tinha bastante poeira, mas pôs a mão na tranca para levantá-la. Um estalo se ouviu e uma viga de madeira, como no sonho, se desprendeu do alto, quase o atingindo na cabeça. Por um triz escapou da morte, visto que a viga era grossa e pesada. Saiu ileso, apenas com pequenos arranhões. A entrada do porão ficou obstruída e ele sozinho não podia fazer nada. Voltou para casa sem mais se preocupar com o assunto.
    Durante o jantar Jair comentou o ocorrido com os familiares, falando também do sonho que tivera e todos pediram que ele tivesse cuidado. Chegou a hora do sono e ele foi dormir sem se lembrar mais do fato. Sonhava agora com o falecido pai, que lhe pediu para não mexer em seus pertences lá no porão. Acordou um tanto assustado, já que nunca sonhara com o pai desde que falecera, naquele mesmo local, quando passou mal, ali expirando.
    Passaram-se alguns meses e a família resolveu vender a propriedade. Uma imobiliária se encarregou da venda, que em poucos dias foi consumada. O novo proprietário, após uma reforma na casa, devolveu os pertences que se encontravam no porão, entre eles alguns documentos e objetos de estimação.
    Decorridos três meses da ocupação, a casa já apresentava um novo visual, estava mais arejada e com pessoas morando e trabalhando na plantação. Jair passava pelo local e teve uma boa impressão da antiga casa de campo mas ficou curioso com o sonho que tivera por duas vezes. No primeiro um senhor queria resgatar algo que lhe pertencia e no segundo o pai lhe pedira par não mexer em seus pertences. De repente viu uma movimentação de policiais na casa e que saiam com um saco, onde continha alguma coisa estranha. Procurou se certificar e soube que se tratava de uma ossada que fora encontrada na parede, em uma espécie de gaveta no porão, onde iniciavam uma pequena reforma.
    A família de Jair foi então intimada para prestar depoimento, mas ninguém soube informar nada, já que a única pessoa que tinha acesso ao porão já era falecida e o caso foi encerrado.
    À noite, depois do jantar, Jair ficou pensativo com aquela situação e foi dormir com aquilo na cabeça. Não conseguia imaginar o que acontecera. Deitou e entrou em sono profundo. Começou a sonhar com aquele senhor que queria algo que se encontrava no porão. No entanto ele estava agora mais tranqüilo e lhe dizia que o que queria já foi retirado de lá. Jair ficou intrigado e acordou assustado, lembrando da ossada que a polícia encontrara. Pouco tempo depois foi vencido pelo sono e novamente sonhou, dessa vez com o pai, que lhe dizia que aquele era um antigo desafeto, referindo-se a ossada, que tentara lhe roubar, sendo morto em legítima defesa. Seu pai então resolvera emparedar seu corpo numa gaveta aberta e cuidadosamente fechada, nunca despertando suspeitas. Fizera isso para evitar complicações sem revelar nada para ninguém.