quarta-feira, 9 de outubro de 2013

NUVEM DE FUMAÇA

   Sentado numa mesa de bar, Kléber deu uma baforada de cigarro para cima e imaginou naquela nuvem de fumaça todos os seus pensamentos se concentrarem. Aquela nuvem de fumaça se formou no ar propositadamente e ali ficou por um certo tempo, na calmaria do ambiente, sem que a corrente de ar a dissipasse. Kléber “jogou” ali tudo o que estava perturbando a sua cabeça, tudo que pensava e que não era bom para ele. Ficou ali parado olhando a fumaça aos poucos desaparecer e levar com ela todos os problemas que o importunava, que o deixava pra baixo, sem conseguir encontrar prazer em nada que fizesse. Tomou um gole de cerveja e sentiu duas lágrimas rolarem pelo rosto. Admirou-se, pois não tinha o costume de fraquejar assim, chegando a esse ponto. O que estaria acontecendo afinal?
   Tempos atrás ele estava em um bar, não esse, um outro qualquer que não recordava mais devido ao tempo que passou. Tinha uma bela companhia, era mais jovem, tinha planos na vida e tudo corria bem. Laudicea, esse nome nunca lhe saiu da memória, uma garota que conhecera num baile e que tentou paquerá-la, até conseguindo de certa forma. Mas o destino foi cruel com Kléber, que em plena mesa de bar tomando uma geladinha com ela, viu o seu desejo não ser realizado quando Laudicea fixou o seu olhar em outro rapaz e se desculpou lhe pedindo licença e caminhando tranquilamente na direção dele. Kléber procurou terra nos pés e não encontrou, ficou desiludido e teve vontade de ir embora, mas ficou, queria ver até onde ia isso. Se surpreendeu quando Laudicea saiu lhe dirigindo apenas um olhar. Nunca mais a viu nem teve notícias.
   Agora, sentado na mesa de bar, procurou a fumaça que não mais estava no ar, quis formar uma nova nuvem mas se conteve. A mão de uma mulher tocou o seu ombro e ele se assustou quando viu o rosto da figura feminina que o abordava. Era Laudicea que instintivamente entrara nesse bar levada por uma força estranha e contra a sua vontade. Ao entrar ela reconheceu aquele homem que um dia o deixara só, indo ao encontro de outro. Arrependeu-se amargamente com o tempo e agora, separada de um casamento que durou quatro anos, se vê frente a frente com Kléber, que nem conseguiu sorrir em vista da surpresa.

   A mesa de bar ficou em festa, Kléber já conseguia sorrir, já conversava animadamente com Laudicea. O tempo que ele passou pensando nessa criatura o deixou muito abatido mas tudo mudou como por encanto e a nuvem de fumaça pareceu ter ajudado Kléber a ajustar sua vida.

M O T I V O S

eu tenho todos os motivos
para não gostar de ti
todos os motivos mesmo
para não abraçar esse corpo
de uma mulher impura e infiel

eu tenho todos os motivos
para me afastar de ti
todos os motivos, acredite
para não beijar essa boca
que muitas outras bocas beijou

eu tenho todos os motivos
para ir para bem longe
todos os motivos eu tenho
para nunca mais olhar nos teus olhos
e dizer que não mais te amo

mas eu tenho um motivo
um único motivo apenas
que me faz ficar contigo
e enfrentar todas essas coisas
esse motivo é: eu te amo

sábado, 5 de outubro de 2013

REVELAÇÃO E REMORSO

   O carro parou em frente da casa em estilo colonial e dele desceram cinco pessoas. Um senhor de certa idade apresentava um semblante triste como se aquele lugar não lhe agradasse, diferente das demais pessoas que sorriam ao adentrarem o imóvel. Parado ali, enquanto todos se divertiam com aquela chegada, o homem deixou cair algumas lágrimas numa clara demonstração de que ali não gostaria de estar. Chamava-se Rubens e essa casa era dele e as pessoas que chegaram com ele eram seus familiares. Alguns minutos se passaram e Rubens continuava ali próximo ao carro, absorto em seus pensamentos, talvez querendo desistir de entrar na casa, arranjando uma desculpa qualquer para voltar, mas foi chamado por Rute, sua filha mais nova:
- Pai, venha! Entre.
Um mundo de preocupações pareceu cair sobre sua cabeça deixando-o sem saber o que fazer, porém atendeu ao apelo da filha e entrou. Sentiu seus nervos se agitarem e uma dor a martelar sua cabeça. Raquel, a filha mais velha, perguntou:
- Tá se sentindo bem, pai?
Rubens acenou a cabeça afirmativamente e procurou esquecer o que lhe afligia. Segurou a bengala com firmeza e percorreu os cômodos da casa, tentando não demonstrar nada que perturbasse as filhas e os dois netos que o acompanhavam. Estavam felizes, lamentavam somente a ausência de d. Aurora, a esposa de Rubens, que segundo ele desaparecera misteriosamente sem deixar vestígios, deixando todos sem uma explicação lógica, sem um motivo que justificasse esse sumiço.
   Para entendermos melhor esta história, vamos voltar no tempo, há exatamente vinte anos, quando as filhas eram ainda crianças e moravam nessa casa. Rubens e Aurora brigavam frequentemente por causa de suas aventuras amorosas e na última briga Aurora levou a pior. Rubens teve o desplante de levar uma amante para o próprio lar aproveitando a ausência da esposa, que chegou repentinamente e o flagrou em colóquio amoroso na cama do casal. Isso foi demais para Aurora, que se enfureceu e partiu para cima de ambos com uma faca na mão. Rubens tentou evitar o golpe e segurou-a com força, mas por infelicidade a faca cravou-se no peito da esposa que caiu esvaindo-se em sangue. As meninas estavam na escola e ele apavorou-se com a situação, sem condições de socorrê-la naquele momento, visto que a casa ficava em área rural e não dispunha de transporte para levá-la a um hospital de imediato. Mas seria impossível lhe devolver a vida, pois ali mesmo Aurora expirou. Diante do fato Rubens decidiu sepultar a esposa ali mesmo, nos fundos do imóvel, onde cavou um buraco e colocou o corpo com a ajuda da amante, que após o fato sinistro sumiu da vida de Rubens.
   O marido infiel justificou depois para as filhas que a mãe havia desaparecido por conta das divergências dele e escondeu a verdade durante vinte anos. Mudou-se para outra residência do casal e deixou o imóvel rural ao abandono. As dívidas cresceram e a casa foi tomada por falta de pagamento da hipoteca, obrigando-o a voltar para a antiga casa na zona rural.
   Rubens começou a fraquejar e caiu, sendo amparado pelas filhas, que exigiam uma explicação para tal acontecimento. Um pai que iniciou um choro convulsivo tinha que dar explicação pelo que estava acontecendo e o remorso tomou conta dele, que contou toda a verdade e pediu perdão. Raquel e Rute choraram muito quando foram informadas pelo pai do desaparecimento da mãe e agora, vinte anos depois, repetiram o mesmo gesto, tiveram um duplo sentimento de tristeza e de perda, quando do “desaparecimento” e depois com a revelação do pai.

   Voltaram a residir ali, depois da retirada dos ossos de Aurora e um sepultamento digno. Mas Rubens perdeu toda a vontade de viver e adoeceu gravemente, vindo a falecer dias depois. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

UMA VIDA DE CÃO DE UM CÃO

Polícia investiga se cachorro envolvido em acidente de trânsito em Florianópolis tem dono Edu Cavalcanti/Agencia RBS
   Depois de percorrer léguas no sol quente, sempre com a língua de fora, enfim sombra e água fresca, ou melhor, somente a sombra, pois a água estava muito distante ainda para um pobre cão que estava perdido numa selva de pedra e trânsito engarrafado. Eu o havia seguido de moto, de longe, querendo saber aonde ia e o que faria depois. Parado numa sombra de árvore ele observava os carros, se assustava às vezes com buzinas e não se incomodava com meio mundo de gente perto dele. Enquanto ele estava na sombra, descansando com certeza, eu estava no sol, parado, guardando uma certa distância para não ser identificado pelo animal.
   Passaram-se alguns minutos e eu resolvi me abrigar na sombra de um poste. Em seguida o cão resolveu reiniciar a caminhada e foi parar exatamente na entrada do prédio onde eu e minha esposa alugamos recentemente, já que ficava próximo do trabalho dela. A casa onde morávamos ficou com os filhos, que não dispunham de tempo para cuidar de “Rex”, que ficou conosco no prédio no centro da cidade. Como o síndico proibiu a permanência dele no prédio, tivemos que dar um jeito de deixá-lo na casa do subúrbio, com alimentação e água. Essa foi a terceira vez que “Rex” chegou sozinho ao prédio e nessa última eu decidi segui-lo por vários quilômetros de distância e checar a capacidade desse animal de estimação de procurar a companhia de seus donos, me fazendo ficar com ele na casa do subúrbio e desistir do prédio alugado.

   “Rex” não vai mais “reclamar” da nossa companhia e nem vai mais precisar fugir, enfrentando sol e trânsito conturbado na cidade.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

DESPEDIDA DO SOL

o sol do finalzinho da tarde se despedia
dava um adeus melancólico no horizonte
levando com ele para detrás do monte
os meus pensamentos que no ar flutuavam
saídos de mim quase lentamente
como se escapassem furtivamente
não querendo que eu sofresse mais

eu olhei para aquele sol e implorei
pedi para que ficasse mais um pouco
gritei, não adiantou, quase fiquei rouco
iria perder mesmo o meu passatempo
esses poucos minutos vendo o sol fugir
sabendo que a escura noite logo ia cair
me fazendo esquecer esse deleite vespertino


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O QUE LEVA ALGUÉM A COMETER UM CRIME?

   O que leva uma criatura humana a cometer um crime? Desespero? Ódio? Vingança? Inveja? São vários os fatores que levam uma pessoa ao cometimento de deslizes que fogem do raciocínio normal. O momento é que faz o indivíduo mostrar ações que ele mesmo desconhece, quando age de forma que foge aos padrões normais do seu comportamento, quando se torna um outro ser. Geralmente isso acontece com pessoas vítimas de assaltos, reagindo de forma inesperada em defesa do bem que será tomado pelo bandido e nem sempre obtendo êxito, culminando com a morte.
   O desespero leva pessoas aparentemente tranquilas a uma reação violenta, quando parte para a agressão ou acerto de contas, eliminando o oponente. O ódio contido no ser humano não é aceitável, ele só destrói, só causa o mal, mas nem todo mundo consegue perdoar, “deixar pra lá” certas atitudes ofensivas. Vingança é uma coisa que os fracos de espírito prometem no intuito de “lavar a alma”, sem perdoar o seu oponente. Inveja, um mal que contamina os gananciosos, aqueles que não se sentem bem vendo pessoas “subirem na vida”.

   Como vemos, o ser humano é passível de sofrer alterações no seu comportamento, que pode ter uma reação a qual ele próprio desconhece.

NÃO CONSIGO TE ESQUECER

eu queria tentar te esquecer
mas não consigo de forma alguma
quanto mais me afasto de ti
meu coração chora, às vezes ri
pede a tua presença sempre
e essa angústia me abala
quando te vejo perco a fala
sabendo que não me dás atenção

não sei o que faço pra esquecer
essa tua imagem que me atormenta
me fez esconder teu retrato
mesmo que não te esqueça, é fato
mas é o que posso fazer agora
pior é que não te vejo com ninguém
e o que me sustenta é esse porém
de um dia resolveres voltar pra mim