terça-feira, 14 de agosto de 2012

VENCEU O AMOR



    A noite estava fria quando Pablo chegou em casa, vindo da casa de sua quase noiva Elza. Amavam-se profundamente e já pensavam em casar, ter filhos e formarem uma família maravilhosa. Mas algo estava perturbando ele, um fato que poderia por tudo por água abaixo e acabar de vez com esse sonho. Não gostava nem de pensar no dia que isso viesse a acontecer, podendo até causar a ruína de seus negócios, pois era um grande comerciante da cidade, representando produtos que vinham do exterior, como tecidos e tapetes. Os pais de Elza pretendiam viajar para a Europa, onde residem outros parentes, por não estarem muito de acordo com esse futuro casamento. O gosto deles era que a filha se casasse com Túlio, filho de um sócio seu que para lá se mudara e que era apaixonado por Elza. No início ela chegou a gostar dele, apesar de sua arrogância, mas quando conheceu Pablo o seu coração palpitou por ele, iniciando então um romance que desagradou seus pais.

    No dia seguinte Pablo chegou na casa de Elza e a encontrou triste, notando que ela havia chorado. Abraçou-a com carinho e a beijou, demonstrando o seu afeto e sendo retribuído. Ela dependia muito dos pais e não queria desagradá-los e vivia um tempo em que os filhos deviam obediência aos mesmos. Contou para ele a decisão tomada pelos genitores de que se mudariam para a Europa e ela teria que acompanhá-los. Pablo enrubesceu diante dela, porém nada poderia fazer naquele momento, seus negócios estavam prosperando e era necessária a sua presença no Brasil para administrá-los, a fim de não terem uma queda vertiginosa. Os pais de Elza nem sequer davam-lhe atenção, preocupando-se apenas com o seu ramo de negócios, que era a frota de vapores que faziam o transporte para a Europa.

    O vapor deixou o cais levando Elza e os pais rumo à Europa onde residiriam definitivamente. Pablo acompanhou a partida discretamente, já que eles não permitiram que a filha o visse. Lágrimas desceram dos olhos desse homem apaixonado que prometeu que tudo faria para tê-la de volta. Seu grande medo era Túlio reconquistá-la e tê-la nos braços, coisa que não suportaria se acontecesse. Lutaria com unhas e dentes para que o seu amor não fosse ferido, principalmente pelo fato de saber que Elza o amava, aguentando resignado essa fase que o destino se encarregou de fazê-lo viver.

    Passaram-se alguns meses sem Pablo ter notícias da amada e ele fazendo tudo para manter seus negócios sempre em crescimento. Raras eram as vezes que recebia uma correspondência de Elza, o que deixava ele mais tranquilo. Sabia que ela o amava e planejou tudo para que ela voltasse e se casassem o mais breve possível e esse dia estava próximo.

    Após uma discussão com os pais, que queriam o seu casamento com Túlio, que não parava de importuná-la, Elza tomou uma decisão: quando eles se ausentaram, preparou suas malas e tomou o primeiro vapor com destino ao Brasil. Após alguns dias em alto mar, finalmente chega em terra firme, pronta para viver seu amor com Pablo, que a esperava no cais. Desembarcou alegre, jogando as malas no chão, abrindo os braços e correndo para os braços dele. Usava lindos óculos azuis e um vestido muito elegante. Ficaram abraçados por um longo tempo como para recuperar os momentos perdidos, podendo agora desfrutarem de um amor sem fim.
(Este conto é o mesmo conteúdo da poesia CORPOS QUE SE ABRAÇAM, deste autor).

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O SEGREDO DE LEA


Esta história é parte do conto LEA, CRIME E MISTÉRIO, com o desvendamento de um segredo. É como se a mesma história fosse desmembrada em duas.


    Chovia forte quando Lea se preparava para sair, o trabalho lhe esperava em um escritório que ficava a poucos quarteirões, não necessitando de transporte para isso. Lígia, sua irmã, notara o seu abatimento durante o café da manhã, perguntando se ela estava com algum problema, já que se davam muito bem, respondendo Lea que estava tudo bem, ostentando um sorriso forçado, notado pela irmã. A chuva passou e Lea seguiu para o trabalho.

    À tarde, quando chegou do escritório, Lea estava aparentemente feliz, fazendo questão de mostrar isso para a irmã, que já andava desconfiada dela em suas atitudes. Lea tinha um problema sim, mas não queria que ela soubesse, afinal era adulta e saberia resolver os seus problemas. Namorava um homem que veio a descobrir que era casado depois de se envolver com ele três meses após, já demonstrando gostar bastante dele. Pensou em acabar mas desistiu, tinha uma coisa que ocultava de sua irmã, esperando um momento oportuno para fazê-la saber: estava grávida e não queria perder esse filho. Vicente, o pai, havia pedido que ela abortasse, pois poderia causar sérios problemas para ele, que tinha mulher e filhos, fato que escondeu dela mas acabou confessando, depois dela ter pesquisado com eficiência e ter sido ajudada por uma amiga.

    Clara, a amiga de Lea, chegou em sua casa logo após o jantar. Trancaram-se no quarto para uma conversa, o que deixou Lígia desconfiada, pois apesar de ser sua amiga, Clara nunca tinha vindo fazer uma visita, sendo portanto uma surpresa. Demoraram pouco mais de uma hora no quarto e saíram sérias. Clara se despediu de Lígia e prometeu voltar outro dia, pois o assunto da conversa não foi revelado, ambas afirmando que eram coisas triviais.

    No dia seguinte Lea chegou em casa bastante abatida, não tendo como esconder da irmã esse fato, só não disse o que estava acontecendo, prometendo a irmã que contaria tudo para ela assim que regressasse de uma visita que faria depois que jantasse. Jantou normalmente e saiu dizendo para a irmã que iria na casa de uma amiga. A noite avançou e Lea não retornou, deixando Lígia preocupada, que terminou cochilando na sala e não viu as horas passarem. Acordou repentinamente e olhou o relógio, percebendo que já passava das três da madrugada. A esta hora não era mais possível sair para procurá-la, esperando então o dia amanhecer.

    O dia amanheceu e Lígia saiu para procurar Lea, mas não sabia por onde começar. Não tinha ideia de onde poderia estar, não sabia qual o problema pelo qual ela estava passando, enfim Lea não havia lhe contado nada e Lígia sabia que algo de grave poderia estar acontecendo. Lembrou-se de Clara, sua amiga e confidente, decidindo ir até sua casa, apesar de não saber exatamente a rua, mas procurou e terminou achando. Só que para sua surpresa Lea não estava lá e nem ela sabia onde poderia estar. Mas Clara foi sincera e resolveu contar o problema que Lea esta enfrentando. Falou de Vicente, com quem namorava e que estava grávida, tendo sido orientada por ele para abortar, o que causou revolta nela, não aceitando esse crime. Saíram as duas então para uma delegacia onde prestariam uma queixa de desaparecimento. Fizeram o boletim de ocorrência e horas depois souberam de um corpo do sexo feminino encontrado em local ermo com ferimentos de bala. Era Lea. Ficaram horrorizadas com o fato e informaram à polícia sobre o possível suspeito, um homem casado que a namorava.

    A polícia se encarregou de efetuar investigações e identificou Vicente como principal suspeito, que terminou confessando o crime para esconder da mulher o romance com uma amante. Assim foi conhecido por Lígia o segredo que Lea guardava.

LEA, CRIME E MISTÉRIO


    Lea deixou o escritório um tanto preocupada, os próprios colegas de trabalho notaram que ela não estava em seu estado normal e até questionaram sobre isso, mas ela afirmou que estava tudo bem e que não se preocupassem. Aldo foi quem mais se preocupou com Lea, já que era uma garota desinibida, falante e de repente, num espaço de poucos dias percebeu sua transformação. Gostava dela, sentia até uma certa atração, mas não tinha coragem de revelar esse segredo. Enquanto o coração aguentasse ele ficaria apenas admirando-a, amando-a secretamente, até que um dia esse desejo explodisse.

    No dia seguinte Aldo percebeu Lea um pouco mais agitada, principalmente depois que recebeu um telefonema. Ela pediu ao chefe para sair mais cedo alegando mal estar e ganhou a rua. Aldo teve um impulso e decidiu segui-la discretamente, tendo avisado aos colegas dessa sua atitude. Viu que ela seguia apressadamente, parando em um determinado local, aguardando alguns minutos até que um carro parou próximo, tendo saído do mesmo um homem que se aproximou dela e a beijou na testa. Aldo assistiu aquela cena sendo acometido de ciúme, mas se controlou. Houve uma conversa ríspida entre eles e em seguida Lea entrou no carro que partiu imediatamente. Transtornado, Aldo voltou para o escritório e comunicou o fato aos colegas, que ficaram  imaginando mil coisas.

    Aldo não dormiu nessa noite pensando em Lea, naquela cena que o deixou enciumado e magoado. Mas não podia cobrar nada dela, não a namorava, não tinha motivos para lhe pedir satisfações. O seu coração estava sentido, amava secretamente aquela moça, tinha vontade de contar para ela o quanto a amava, porém a sua timidez impedia, mas ele iria tentar vencer esse medo e declarar o seu amor, custasse o que custasse.

    Na manhã seguinte Aldo chegou cedo no escritório, queria ver o semblante de Lea, queria ser o primeiro a saber o que acontecera. Ela não apareceu para trabalhar, o que deixou ele mais preocupado ainda. As horas se passaram e nada de Lea aparecer, deixando todos com uma interrogação devido ao fato do relato de Aldo e também por não conhecerem o tal homem que lhe dera carona.

    Os jornais do dia seguinte deram uma notícia trágica que abalou todo o pessoal do escritório. Um corpo de mulher fora encontrado sem vida em um local ermo, apresentando ferimentos provocados por arma de fogo. E esse corpo era o de Lea, aquela criatura que gozava do prestígio de todos os colegas, aquela moça alegre que conversava com todos e de repente se viu fora de si, abatida, preocupada com algo que não era do conhecimento desses amigos.

    O enterro teve o comparecimento de todos do escritório, além de familiares e amigos. Todos sentiram a falta dessa pessoa tão distinta, tão querida, que ficaram questionando qual seria o motivo da sua morte. Nesse dia o chefe do escritório decretou folga para os funcionários em homenagem ao evento fúnebre de uma integrante de seu quadro.

(Obs.: o mistério desta história será desvendado no próximo conto: O SEGREDO DE LEA. Aguardem).

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O ANJO BOM QUE MUDOU MINHA VIDA


    Eu sempre fui uma pessoa de poucos recursos, saldando meus compromissos com muita dificuldade, às vezes “descobrindo um santo para cobrir outro”, mas nunca procurei levar vantagem em nada e nem subtrair aquilo que não me pertencesse. Eu acreditava que a vida era para ser vivida da maneira como pudéssemos, não importando se a pessoa tivesse dinheiro ou não.

    Certo dia eu estava na cidade fazendo alguns pagamentos e resolvendo outros problemas quando o cansaço me bateu e para descansar as pernas me sentei num banco de praça, ficando a meditar um pouco. Próximo a mim existia um orelhão que começou a tocar. A praça estava quase deserta e eu fiquei desconfiado se alguém não estava querendo pregar uma peça. Olhei atentamente as redondezas e não vi ninguém suspeito, resolvendo atender ao telefone. Uma voz que não consegui identificar se era masculina ou feminina me cumprimentou e perguntou se eu estava disposto a cumprir uma tarefa. Achei engraçado e imaginei que se tratava de um trote, já pensando em desligar, mas a voz era tão melodiosa que decidi escutar. Me informou algumas dezenas me pedindo para fazer um jogo na loteria mais próxima. Como não estava com lápis e papel na mão, anotei na agenda do celular. Como para confirmar a voz me pediu que repetisse os números, o que fiz prontamente. “Agora tem uma coisa”, disse a voz intrigante, “você vai ganhar e ficar com apenas 10% do prêmio, devendo doar os 90% a uma instituição de caridade idônea”. Aquele fato me deixou bastante intrigado, porém resolvi atender. Entrei numa loteria e fiz o jogo solicitado. A voz não havia se identificado e fiquei no aguardo dos acontecimentos.

    Quando conferi o jogo quase caí de costas, foi um susto muito grande, pois eu achava que aquilo tinha sido uma brincadeira. Os números conferiam com o resultado e o prêmio foi fabuloso, apesar de outras duas pessoas também terem acertado. A voz da ganância soprou no meu ouvido mas não dei importância, quis mostrar que cumpriria a minha palavra, mesmo sob os protestos da minha esposa. Fiz o que a misteriosa voz pedira, procurando uma instituição séria que ajudava pessoas e fiz a doação. Os 10% a mim destinados foram suficientes para resolver meus problemas financeiros, sobrando uma pequena reserva que depositei na poupança.

    Passaram-se algumas semanas e lá estava eu circulando naquela mesma praça e vendo o bendito orelhão, que coincidentemente começou a tocar. Já fui imaginando que era aquela voz, aquela pessoa que me dera a sorte. Com efeito, para minha surpresa era a mesma voz, que novamente me informou novos números, novas dezenas para serem jogadas na loteria. Desta vez não impôs nada, apenas disse que tudo me pertenceria, o prêmio seria só meu, não precisaria fazer doação alguma. Fiz o jogo já esperando ganhar novamente na loteria, o que realmente aconteceu. Mesmo que aquela voz de anjo dissesse que o prêmio seria todo meu, decidi doar uma parte para outra instituição de caridade. Até hoje agradeço àquele anjo bom que mudou a minha vida e me fez ser uma pessoa muito feliz.

A TARDE MORRIA


o sol emitia seus últimos raios dourados
a tarde morria, dava os últimos suspiros
o céu era a tela dos meus sonhos imaginados
com gravuras e traços por mim desenhados
frutos da minha mente, do meu querer
só eu podia ver, só eu para entender
era a minha tarde, eu a dominava
estava morrendo, eu a amparava
gostaria de não deixá-la ir embora
deixando a noite tomar conta do céu
colocando sobre ela seu escuro véu
eu contemplava essa tarde quando morria
desde os primeiros instantes quando me sorria
durante todo seu percurso até a noite
que me roubava os seus encantos
e me deixava triste, em prantos
até o novo dia quando tudo recomeçava
a tarde morria, esse o instante final
eu também morria nesse instante fatal

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A CAIXA


    Jânio olhou o relógio e se apressou para sair, indo até a janela para ver o tempo. A tarde estava quase indo embora, caiam alguns pingos de chuva de uma nuvem escura, como que anunciando a chegada da noite, a dona do silêncio. Ele olhou mais uma vez o relógio, abriu a porta do apartamento, antes se benzendo, fechando-a e descendo dois vãos de escadas, ganhando a rua em seguida. Aparentemente ele parecia nervoso e nem percebeu que um carro buzinava para chamar a sua atenção, atendendo somente com a insistência do motorista. Atravessou a rua rapidamente, após um aceno, passando a conversar com o mesmo. Entrou no carro e partiram, ganhando uma estrada deserta.
    Dias antes ele havia discutido com a esposa, uma senhora bem mais velha com quem resolvera casar apenas interessado em seus bens, já que era uma mulher só e sem parentes conhecidos. No auge da discussão Jânio a empurrou da escada, indo seu corpo se projetar no andar de baixo. Julgando que estivesse morta, colocou o seu corpo em uma caixa e depositou a mesma no porão da velha casa onde moravam, aguardando que a noite chegasse para dar sumiço ao mesmo. Dirigiu-se para o apartamento de sua propriedade levando alguns pertences, só retornando à noite para a tarefa macabra. Foi até o porão, com a ajuda de um amigo, pegando a caixa e colocando em uma caminhonete, seguindo para um local ermo onde a enterrou.
    Seguindo agora pela estrada com o amigo que o ajudou a enterrar a caixa, Jânio imaginava um monte de coisas. Lembrou do momento quando pegou aquela caixa desconfiando do seu peso, achando que estava um pouco mais pesada, mas não quis abrir para conferir. Lembrou também de uma voz misteriosa que lhe telefonou, afirmando que na caixa enterrada havia muito dinheiro e joias, o que o deixou impressionado e curioso, fazendo com que a sua ganância o levasse a desenterrar a caixa, cerca de três dias depois. Imaginou que o corpo da esposa poderia não estar na caixa, que ela tenha escapado, mas a cobiça o fez conferir, indo ao local ermo com a ajuda do amigo. Estacionaram o veículo, deixando os faróis acesos para verem melhor e com a ajuda de pás iniciaram a escavação. Terminado o serviço, abriram a caixa e verificaram que na mesma existiam apenas pedras enroladas em trapos velhos. Jânio sentiu-se traído e humilhado. Já se dirigiam para o carro os dois homens quando alguns tiros foram ouvidos na calada da noite e dois corpos tombaram ao chão. Um vulto de mulher surgiu da escuridão, entrou no veículo e partiu.

POBRE SONHADOR


(P)eregrinando pelas calçadas
(O)lhando a vida sem vivê-la

(B)atendo pernas a vida inteira
(R)indo dela sem entendê-la

(E) um monte de ilusões num coitado

(S)onhador sempre por natureza
(O) tempo para ele parece não existir

(N)unca está sóbrio em suas andanças
(H)ora pensativo, hora resolve sorrir

(A)lgo perturba seu pensamento
(D)ias e noites em sofrimento

(O) mundo é seu lar, seu domínio
(R)i e chora numa vida em declínio


Pobre homem, no peito uma dor
Caiu em desgraça, perdeu seu amor

Pobre homem, procura alguém pra viver

Solitário na vida, não quer mais sofrer