domingo, 5 de agosto de 2012

LENIRA, UMA LEMBRANÇA INESQUECÍVEL


    Lenira era o tipo de garota que causava sensação pelo seu jeito de viver, de ser comunicar com as pessoas, pela alegria que contagiava todos do seu grupo de amigos. Era muito bonita, ostentando um visual de causar inveja e despertando o interesse de alguns rapazes do bairro, principalmente de Paulo, o que mais se aproximava dela. Mas ela não dava bolas para nenhum, parecia perdida num mundo de fantasias, queria apenas viver a vida, sentir emoções, bater um papo com um, com outro, nunca demonstrando uma atenção especial para A ou B, pois para ela todos eram iguais, todos eram seus amigos e frequentavam o mesmo colégio.

    A aula terminou naquela manhã nublada de uma sexta-feira e Paulo a convidou para tomarem um sorvete ali perto, pretendendo com isso tentar conquistá-la, mostrar para os demais amigos que era possível acontecer entre eles um clima romântico. Era o seu grande desejo, já do conhecimento geral. Lenira abriu um largo sorriso, ficou em dúvida, mas aceitou o convite. Paulo sentiu o coração palpita bem mais forte, teve receio de que aquela imensa alegria transbordasse a ponto de causar risos e comentários nos colegas, que já balbuciavam algumas palavras que não eram ouvidas por ele. Chegou na sorveteria como um cavalheiro, puxando a cadeira para que ela sentasse, impressionando-a. Lenira se sentia a mesma garota de sempre e tomando o sorvete com delicadeza, olhou bem nos olhos de Paulo e perguntou se ele era feliz. Ele ficou sério com a pergunta e respondeu imediatamente para não perder essa grande oportunidade, afirmando que naquele momento era o homem mais feliz do mundo, simplesmente por estar ali cortejando-a. Chegou mais perto do seu rosto e tentou beijá-la, mas ela pediu que tivesse calma. Paulo então pegou suas mãos e beijou-as suavemente, sentindo o seu perfume agradável, aquele que costumava sentir nos dias de aula ou quando estavam no intervalo das mesmas.

    Saíram da sorveteria alegres. Paulo se sentia um “Dom Juan”, mesmo sem ter conseguido beijá-la, indo cada um para sua residência. Em casa Paulo pensou o tempo todo naqueles momentos da sorveteria, guardando na mente cada imagem que não mais se apagariam, faria sempre parte do seu viver.

    Chegaram as férias e o grupo de amigos se preparava para um passeio, uma viagem que eles sempre faziam para uma fazenda. Era normal todo ano esse passeio, oportunidades quando tiravam bastante fotografias. Todos estavam prontos, faltavam apenas dois dias para o início da viagem, quando uma notícia triste abalou o grupo: um trágico acidente de carro ceifou a vida de Lenira. Paulo foi quem mais sofreu com isso e o evento fúnebre ocorreu no cemitério da cidade.

    Chegou o dia da viagem, todos estavam transtornados, mas não tinham como cancelar a viagem, já programada antecipadamente. Os amigos se reuniram na fazenda mas não houve alegria, não teve as brincadeiras que sempre faziam, apenas momentos de reflexão e algumas fotos do grupo. Final da viagem, antecipada por motivos óbvios em face do desaparecimento prematuro de Lenira. As fotos foram reveladas e todos se juntaram na biblioteca do colégio para verem. Todos se assustaram com uma cena que nunca mais sairá de suas mentes: em todas as fotos lá estava a figura de Lenira, alegre e sorridente no meio do grupo. Essa será uma lembrança inesquecível da sua alegria.

AMOR INESQUECÍVEL

eu estava decidido a não deixá-la partir
queria segurar aquele amor inesquecível
achava que conseguiria, que era possível
um amor que durou pouco, mas valeu
pelos momentos vividos, pela emoção
pelo prazer de sentir seus beijos com paixão
estávamos sempre juntos em harmonia
podia sentir o calor do sol do meio dia
eu tinha certeza que não conheceria a solidão
mas veio o destino e tirou ela de mim
arranjou um pretexto, um jeito qualquer
roubou dos meus braços essa mulher
o amor escapuliu como areia das mãos
soprou como um vento forte em mim
criou uma ferida, uma dor, coisa assim
jogou fora esse amor inesquecível
hoje eu choro, amargo a dor da saudade
que me priva o direito de ter felicidade

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A CHUVA


a chuva me aquietou
me fez ficar em casa pensativo

eu tinha olhado o tempo lá fora
queria me distrair, talvez fazer hora

ou simplesmente sair sem algum motivo


nervos à flor da pele
problemas aparentemente sem solução

eu ia sair, a chuva não deixou
entrei no meu quarto, nada mudou

será que a chuva acalmaria meu coração?


a chuva caiu mais forte
encharcou de repente toda a estrada

meus passos ao quarto ficaram restritos
peguei meu caderno e olhei meus escritos

esqueci a chuva nessa hora desastrada


parou a chuva então
mas fiquei com o caderno do meu lado

saíram os versos que aqui estão
talvez com algum sentido ou não

agradeço a chuva por ter me inspirado

O CAVALEIRO E A MORTE


um velho cavaleiro, uma espada afiada
uma sombra que o persegue noite e dia
uma mente insana, sempre vazia
procurando mais coragem para se defender
de quem? por que? não quer responder
está sendo caçado, alguém o quer
não sabe o que fazer, precisa de sorte
mas sabe que querem a sua morte
viveu de ilusões, matou inocentes
não escapou nem criaturas dementes

agora se sente acuado, perdido
e a morte o procura, quer combatê-lo

tirar sua vida também, vencê-lo
vingar aqueles pobres que pereceram
esse destino com certeza não mereceram
mas chegou o grande dia afinal
eis que chega um herói em sua frente
o cavaleiro não tem como fugir e mente
porém um golpe certeiro lhe foi fatal
morreu um cavaleiro da época medieval

FANTASMAS QUE NÃO ASSOMBRAM




Quando eu era menino no Pina
Tinha medo de alma do outro mundo
Não gostava de cemitério, era imundo
Assim eu pensava com minha pouca idade
Sentia arrepio com histórias de assombração
Na cabeça o tempo todo muita imaginação
Hoje, depois de passarem os anos
A gente ainda fica com aquilo na cabeça
Com receio que qualquer coisa aconteça
Agora tem uma coisa que causa raiva
É um tipo de fantasma que a gente conhece
“Trabalha” pro governo, recebe mas não merece
Lá em Brasília tem muito fantasma assim
Esse não mete medo, não assombra não
Rouba o nosso dinheiro, nos deixa na mão
O Brasil todo já ficou sabendo
Desses fantasmas que não assombram ninguém
Tirando o direito do trabalho de alguém

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A JANELINHA



Bel olhou pela janelinha
Viu o sol por entre as nuvens se esconder

Queria ser como ele, lá de cima tudo ver

Ter a visão do que a natureza mostrava

Mas estava ali preso num quadrado escuro

Pouco via a claridade, não tinha futuro

Aquela janelinha lhe mostrava o céu

Era muito alta, não conseguia subir

E muito pequena, não podia fugir

Naquela solitária só via o carcereiro

Quando chegava a noite tinha um candeeiro

Blasfemava contra tudo, depois se arrependia

Pelo seu crime foi castigado, agora sofria

Pensava na esposa que o abandonou

Por não aceitar seus vícios, sua valentia

A sua mente era perversa, doentia

Só o tempo agora para lhe transformar

Não parava de fitar a janelinha

Sua única amiga e companheira

Sempre ali, uma alegria derradeira

RECOMPENSA



   Tirei do bolso algumas moedas e entreguei para um menino que me estendera a mão. Próximo a ele estava uma senhora idosa, maltrapilha, com uma sacola onde continha alguns mantimentos, frutos de esmolas. Após esse ato de caridade procurei seguir meu caminho, pensando na situação que aquelas criaturas enfrentavam. Parei adiante e olhei para trás, eu tinha observado que o menino mostrava uma cicatriz na testa, tendo vontade de perguntar o que fora mas me detive. Talvez não fosse oportuno fazer essa pergunta, já tinha feito a minha caridade, nada importava mais.

   Entrei numa casa lotérica para fazer o jogo que havia marcado e coloquei a mão no bolso para pegar as moedas para pagar. Não tinha entregue ainda o bilhete e me dei conta que faltavam R$ 0,25, exatamente o valor das moedas que havia dado ao menino na rua. Naquele momento eu não dispunha de nenhum outro dinheiro.  Resolvi não fazer o jogo e fui para casa, guardando o bilhete no bolso.

   Dois dias depois eu passava em frente da lotérica e algo me fez entrar para conferir o jogo, mesmo sem ter jogado. Qual não foi a minha surpresa quando vi que os números batiam e era um prêmio de valor vultoso. As pessoas me olharam desconfiadas dado o meu estado de perplexidade e de um desespero momentâneo que me bateu. Mas consegui me controlar e saí, chegando em casa bastante abatido, chegando ao ponto de derramar algumas lágrimas, que foram logo contidas quando me lembrei que havia feito uma caridade e que talvez o destino estivesse a me testar. Passaram os dias e eu decidi esquecer o assunto.

   Decorreram muitos anos, fui residir em outra cidade e desfrutava de uma vida pacata em uma pequena vila do município. Estava triste porque não conseguia pagar em dia o aluguel da pequena casa onde morava, dado os parcos recursos de que dispunha como um simples vendedor ambulante. Tinha dias que a alimentação era resumida, preferindo que a esposa e os dois filhos menores se alimentassem melhor.

   Certo dia um senhor bateu em minha porta e pediu para entrar. Vi que estacionou o seu carro luxuoso bem na frente, o que despertou a atenção de vizinhos. Ele entrou e começamos a conversar quando ele perguntou o meu nome. Me entregou um cheque pedindo para que abrisse uma conta, sem dar maiores explicações, mas eu fui insistente e indaguei sobre a sua atitude, tendo em vista o valor altíssimo do cheque que estava em minhas mãos. Quando ele tirou o chapéu eu pude reconhecer uma cicatriz em sua testa, o que me fez voltar ao passado e lembrar daquele menino a quem havia dado algumas moedas na rua. Ele me contou que tivera um sonho, avisando que deveria procurar uma certa pessoa e lhe devolver o que lhe era de direito. Fora informado no sonho onde deveria exatamente bater na porta e foi o que fez. Com aquelas moedas que havia recebido de mim, resolvera completar um dinheiro que tinha e fazer um jogo na loteria, tendo sido o único ganhador do valioso prêmio. Passou a ter uma vida de rico, sempre lembrando da pessoa que lhe dera as moedas que o fez jogar. Procurou muito essa pessoa sem sucesso, só encontrando quando teve esse sonho revelador, acalmando a sua necessidade de achar o alguém que mudara a sua vida. E esse alguém era eu.

   Aquele menino pobre era hoje um rico empresário, tendo usado o dinheiro num bom investimento com a ajuda de sua avó, aquela senhora idosa e maltrapilha que eu havia visto ao seu lado, atualmente falecida. Deixei de ser pobre e agora gozo de uma vida confortável em uma casa de luxo, me tornando empresário e sócio daquele senhor que se tornou meu amigo, tendo a idade de ser meu filho. Essa foi a recompensa que o destino me deu, aquele mesmo destino que prorrogou uma situação que poderia não ser benéfica naquela época.